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Zootecnia Trop., 19(Supl. 1): 297-305. 2001

Efeito da castração sobre a composição regional e tecidual em cordeiros Corriedale1

Paulo de Souza Pereira2, José da Silveira Osório3-4, Maria Moreira 3-4, Nelson de Oliveira4-5, Henrique Faria2 e Roger Esteves6

1 Pesquisa financiada pelo CNPq. Parte da Dissertação de mestrado do primeiro
autor a ser apresentada à Universidade Federal de Pelotas (UFPEL).
2
Aluno de Pós-graduação, Universidade Federal de Pelotas, FAEM, Zootecnia.
Campus. Cx. Postal 354, CEP 96010-900 – Pelotas, RS – Brasil.
3
Professor do Departamento de Zootecnia, FAEM, UFPEL.
4
Bolsista CNPq.
5
Pesquisador Embrapa CPPSUL.
6 Aluno de Graduação (Agronomia), FAEM, UFPEL.
Recibido: 13/7/01 Aceptado:7/7/01


RESUMO

O presente estudo objetivou avaliar a composição regional e tecidual em cordeiros. Foram utilizados 32 animais da raça Corriedale, sendo 15 não castrados e 17 castrados aos 30 dias de idade, criados em condições de campo nativo, no município de Herval do Sul, RS, Brasil, desmamados aos 45 dias de idade. Aos 123 dias de idade, após jejum de 12 horas, realizaramse os abates; as carcaças permaneceram em câmara fria a 1ºC por um período de 17 horas. A metade direita da carcaça foi separada regionalmente em costilhar, pescoço, paleta e perna, após calculouse a percentagem de cada um desses cortes, em relação ao peso de carcaça fria. A seguir, foi realizada a separação de osso, músculo e gordura, da paleta e da perna e, tomado o peso e a percentagem destes componentes em relação ao peso da respectiva porção regional (paleta ou perna). A composição regional e tecidual, não diferiu (P>0,05) entre castrados e não castrados, tanto em valores absolutos quanto em valores percentuais. Conclui-se que não há necessidade de realizar-se a castração, assim como de uma comercialização diferenciada entre as carcaças de castrados e não castrados.

Palavras chave: castração, corriedale, ovinos, composição regional e tecidual.

INTRODUÇÃO

A composição regional se materializa na separação da carcaça em cortes, segundo pautas pré-fixadas, com o objetivo de efetuar a divisão em regiões de acordo com os gostos do consumidor, apresentando, portanto, diferenças entre países e inclusive dentro de um mesmo país e região, dependendo das características culinárias das diferentes zonas (Osório, 1992).

Já a composição tecidual, apesar da complexidade de tecidos que compõe uma carcaça, fica reduzida a nível prático a quantidade de gordura, músculo e osso. Na espécie ovina esta composição merece particular interesse, pois ao consumidor chegam estes três tecidos, a um mesmo preço, regulado unicamente pela parte em que se localiza o corte (Osório, 1992).

De acordo com Sañudo (1980a), a composição ideal de uma carcaça é aquela em que apresenta uma maior percentagem de cortes de primeira categoria, junto com a maior quantidade possível de músculo, mínima de osso e adequada gordura para proporcionar a carne um sabor idôneo.

O músculo é sem dúvida o tecido mais importante do ponto de vista do consumidor e o que se tenta maximizar. Quanto maior a percentagem de músculo na carcaça, maior será o seu valor comercial, sempre dentro do mesmo tipo comercial (Boccard et al., 1962; Sañudo, 1980b).

O estado de gordura é um dos mais importantes fatores que afetam a qualidade da carcaça. É o parâmetro de maior variabilidade, e por isso, o que mais influi na composição tecidual. Por outro lado, dele depende não somente seu valor bromatológico e organoléptico, além de determinar sua conservação e valor econômico.

Lopez et al. (1991) observou que, dentro de uma raça, o efeito de sexo sobre a composição tecidual pode acentuar-se segundo o peso de abate, sendo as fêmeas mais adiposas que os machos. Neste sentido, Rosa et al. (2000), também verificaram efeito significativo do sexo sobre a proporção de osso da carcaça, apresentando os machos uma maior proporção do que as fêmeas.

A testosterona atua sobre a qualidade e composição da carcaça de cordeiros, determinando maior proporção de osso e músculo nos machos não castrados do que nas fêmeas, ocorrendo o inverso para a proporção de gordura (Jacobs et al. 1972).

O presente estudo objetivou comparar a composição regional e tecidual em cordeiros castrados e não castrados da raça Corriedale.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 32 cordeiros, sendo 15 não castrados e 17 castrados aos 30 dias de idade, desmamados aos 45 dias e criados em condições extensivas de campo nativo, no município de Herval do Sul, RS, Brasil.

Aos 123 dias de idade, após jejum de 12 horas, realizaram-se os abates. As carcaças permaneceram em câmara fria a 1ºC por um período de 17 horas. A metade direita da carcaça foi separada regionalmente em pescoço, paleta, costilhar e perna, após cada componente foi pesado e sua percentagem calculada em relação ao peso da carcaça fria. A paleta e a perna foram dissecados em osso, músculo e gordura (composição tecidual); após isto, cada componente tecidual foi pesado e calculada a percentagem em relação ao peso da respectiva porção regional (paleta ou perna), segundo metodologia proposta por Osório et al. (1998a).

Através da análise de variância dos dados foi verificado o efeito da castração sobre a composição regional e tecidual, em valores absolutos e percentuais, utilizando-se o programa GLM ("general linear models") do SAS (1985).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Não foram verificadas diferenças significativas entre castrados e não castrados para a composição regional e composição tecidual, em kg, (QUADRO 1 e QUADRO 2) assim como para os valores percentuais da composição regional e tecidual da paleta e perna (GRÁFICO 1 e GRÁFICO 2).

QUADRO 1. Médias e desvios padrão da composição regional (em kg) da carcaça de cordeiros Corriedale castrados e não castrados


CARACTERÍSTICAS

CASTRADOS

NÃO CASTRADOS

F-TEST


Costilhar (kg)

1,909 ± 0,073

1,925 ± 0,080

0,8761

Pescoço (kg)

0,470 ± 0,024

0,451 ± 0,026

0,6012

Paleta (kg)

1,131 ± 0,032

1,165 ± 0,034

0,4733

Perna (kg)

1,917 ± 0,056

1,960 ± 0,060

0,6066

 

QUADRO 2. Médias e desvios padrão da composição tecidual (em kg) da paleta e perna da carcaça de cordeiros Corriedale castrados e não castrados


CARACTERÍSTICAS

CASTRADOS

NÃO CASTRADOS

F-TEST


Osso paleta (kg)

0,286 ± 0,011

0,283 ± 0,012

0,8474

Músculo paleta (kg)

0,757 ± 0,023

0,788 ± 0,025

0,3685

Gordura paleta (kg)

0,090 ± 0,010

0,077 ± 0,010

0,3778

Osso perna (kg)

0,455 ± 0,017

0,499 ± 0,018

0,0953

Músculo perna (kg)

1,336 ± 0,040

1,354 ± 0,042

0,7501

Gordura perna (kg)

0,118 ± 0,070

0,198 ± 0,073

0,4342

Estes resultados concordam com os de Osório et al. (1999), que estudando os efeitos da castração em cordeiros procedentes do cruzamento de ovelhas Corriedale com carneiros Hampshire Down, criados em campo nativo no Rio Grande do Sul, não verificaram diferenças significativas para composição regional e tecidual entre castrados e não castrados. Isto pode ser justificado pelo fato dos abates terem ocorrido em idade precoce, em um momento onde o grau de crescimento muscular e a deposição de gordura não diferiu entre castrados e não castrados, já que segundo Jacobs et al. (1972), as diferenças, com relação ao desenvolvimento muscular e quantidade de gordura, entre as categorias estudadas neste experimento, se acentuam a medida que o animal aproxima-se da puberdade, pela ação do hormônio testosterona.

Figura 1. Médias da composição regional, em percentagem, de cordeiros Corriedale castrados e não castrados

Figura 1. Médias da composição regional, em percentagem, de cordeiros Corriedale castrados e não castrados

 

Figura 2. Médias da composição tecidual da paleta e perna da carcaça, em percentagem, de cordeiros Corriedale castrados e não castrados

Figura 2. Médias da composição tecidual da paleta e perna da carcaça, em percentagem, de cordeiros Corriedale castrados e não castrados

Os valores médios encontrados no presente estudo para a composição regional, em valores absolutos, foram superiores aos de Osório et al. (1999), que observaram em cordeiros Corriedale abatidos aos 144 dias de idade, para castrados e não castrados (respectivamente) os valores de 1,560 e 1,367 kg de costilhar; 0,378 e 0,339 kg de pescoço; 0,991 e 0,965 kg de paleta; 1,711 e 1,611 kg de perna. No presente experimento, embora tenham sido feitos os abates em uma idade inferior a utilizada por Osório et al. (1999), a pastagem nativa em que os cordeiros foram criados, era de melhor qualidade (Faria e Tavares, Informação pessoal de concenso, 2000), o que determinou esta superioridade.

Neste sentido, Osório et al. (1998), em estudo realizado com a raça Corriedale, em pastagem nativa, encontraram que dos 100 dias de idade até os 150 dias, há um aumento de percentagem de músculo na perna, o mesmo acontecendo com a % de gordura da perna, que aumentou ao redor dos 150 dias de idade; sendo assim, a idade de abate influi na composição tecidual dos cordeiros, de modo que, aos 123 dias, os animais deste experimento não haviam manifestado diferenças quanto a deposição dos distintos tecidos (osso, músculo e gordura) na paleta e perna, entre as duas categorias.

Carvalho et al. (1998), estudando a composição tecidual da perna e paleta de cordeiros castrados, não castrados e fêmeas, oriundos do cruzamento de carneiros da raça Texel com ovelhas cruzas (Texel x Ideal), abatidos aos 100 dias de idade, observaram que a composição tecidual da perna não diferiu (P>0,05) entre os sexos em relação aos valores percentuais de osso, músculo e gordura. Já os valores encontrados pelo referido autor para a composição tecidual da paleta, mostram que os machos não castrados apresentaram maior teor de músculo e um menor teor de gordura do que as fêmeas, não diferindo em relação aos castrados. Isto pode ser explicado pelo fato de que as fêmeas apresentam maturidade fisiológica mais precoce do que os machos, iniciando mais cedo a deposição de gordura e consequentemente diminuindo a proporção de músculo (Azzarini, 1979).

CONCLUSÕES

Não foi verificada diferença entre machos castrados e não castrados, sobre a composição regional e tecidual, em valores absolutos e percentuais, não havendo necessidade de realizar-se a castração em cordeiros criados nas condições deste experimento. Do mesmo modo, as carcaças de castrados e não castrados podem ser incluídas em uma mesma categoria comercial e receber semelhante valorização na comercialização.

Efecto de la castración sobre la composición regional y del tejido en corderos Corriedale

RESUMEN

El presente estudio tuvo como objetivo evaluar la composición regional y tecidual en corderos. Fueron utilizados 32 animales de la raza Corriedale, donde 15 no fueron castrados y 17 se castraron a los 30 días de edad, criados en campo nativo, en el Municipio de Herval del sur, RS, Brasil, y destetados a los 45 días de edad. A los 123 días de edad, después de un ayuno de 12 horas, se realizaron las matanzas, Las canales permanecieron en cámara fria a 1 °C por un período de 17 horas. La mitad derecha de la canal fue separada regionalmente en costillar, cuello, paleta y pierna. Después, se calculó el porcentaje de cada uno de los cortes, en relación al peso de la canal fria. Seguidamente, se realizó la separación del hueso, músculo y grasa de la paleta y la pierna, tomando el peso y los porcentajes de estos componentes en relación al peso del respectivo corte regional (paleta o pierna). La composición regional y el tejido, no difirieron (P>0,05) entre castrados y no castrados, tanto en valores absolutos como en valores porcentuales. Se concluye que no hay necesidad de realizar la práctica de la castración, así como de una comercialización diferenciada entre las canales de castrados y no castrados.

Palabras clave: Castración, ovinos, Corriedale.

Regional and tissue composition in non castrated and castrated Corriedale lambs

SUMMARY

This study aimed at evaluating the regional and tissue composition in lambs. Thirty-two Corriedale lambs were used: 15 non castrated and 17 castrated at 30 days of age; all animals were raised on natural grassland, weaned at 45 days of age, in Herval do Sul, Rio Grande do Sul, Brazil. At 123 days of age after fasting (12 hours) the animals were slaughtered. The carcass remained in frigorifical chamber at 1ºC to 17 hours. Right half carcass was separated in cuts (rib, neeck, pallet and leg); after this was calculated tissue composition (bone, muscle, fat) to pallet and leg in absolute value and it components percents in relation to this cuts. There were no difference (P>0,05) between castrated and non castrated lambs (kg and %); so there is not necessary to castrate lambs raised on the experimental condition. Their carcasses can be include in a same commercial categorie and take a similar valuation.

Key words: castration, Corriedale, ovine, tissue composition

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